"A Animar é uma rede de afectos"
EDUARDO FUGUEIRA E O DESENVOLVIMENTO LOCAL
“A Animar é uma rede de afectos”
Eduardo Figueira, da ALIENDE - Associação para o Desenvolvimento Local do Montoito, no Redondo, recém-eleito presidente da Direcção da Animar - Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local, cuja sede operativa se situa em Vialonga, no concelho de Vila Franca de Xira, não tem dúvidas: "Há todo o espaço e agora, neste contexto de profunda crise, ainda há mais espaço". E porquê? Porque a tendência que existe, por parte das políticas governamentais ou de grandes grupos empresariais, de numa lógica de redução desumana de custos encerrarem serviços e diminuir ofertas localizadas, abre um espaço de necessidades públicas que têm de ser colmatadas. "Há locais onde já não existe oferta de múltiplos e essenciais serviços. Há serviços que deixaram de existir nas comunidades e por isso, a concretização de projectos de proximidade assume um grande relevo". Esta ideia central, a de que as actuais dificuldades obrigam, quase de forma imperativa, a encontrar soluções de cariz social, económico, cultural, etc., animam os novos órgãos sociais da Animar, eleitos a 1 de Dezembro de 2012, que é, no fundo, uma rede de associações de desenvolvimento local, inicialmente concentradas no mundo rural mas que, com o tempo, se expandiu ao meio urbano. "A Animar foi fundada com determinadas características mas, entretanto, adquiriu uma outra natureza: neste momento é rural e urbana, onde está presente nos bairros, principalmente em bairros com mais problemas sociais". As associações de desenvolvimento local, as ADL, têm uma completa autonomia. É inseparável a sua intervenção da comunidade onde se inserem. Como refere Eduardo Figueira, "o desenvolvimento local é transversal, implica realizar projectos, acções, num determinado território, que devem ter em conta a necessidade e os interesses das pessoas. É também complementar, na medida em que ligam diversos vectores, ou seja, podem dar resposta em termos sociais, mas também económicos ou culturais"
As ADL devem lutar pela sua autonomia económica. Se é um facto que a candidatura a projectos, com a garantia de financiamentos, é importante, e para o presidente da Animar, apesar dos constrangimentos económicos e financeiros, "ainda há a possibilidade de apresentar candidaturas a projectos, pese embora a nossa ideia seja mais no sentido de nos candidatarmo-nos a projectos para a rede de associações e não tanto para uma estrutura central", cada vez mais se deve alimentar a ideia de que os "custos de prestação de serviços prestados pelas associações têm de ser suportados". Suportados seja através de compartições estatais – do Estado central ou das autarquias – uma vez que as ADL estão a prestar um serviço que em muitos casos devia ser garantido pelo Estado, seja também por contribuições dos utentes. "Representamos um conjunto de organismos que se integra na economia social, onde existe uma componente solidária muito forte", e onde o lucro não é a preocupação principal.
Trabalho em rede
Para garantir esses serviços a um nível compatível com as actuais dificuldades das pessoas e permitindo, ao mesmo tempo, que as ADL, onde o voluntariado tem um papel muito importante, consigam assumir os custos inerentes à sua actividade, impõe-se concentrar meios e esforços, apostando num reforço real do trabalho em rede. "A Animar, enquanto rede, pode facultar às associações os serviços da sua equipa técnica, a Animar pode divulgar e envolver as ADL nos projectos que existam ou venham a existir, potenciando as capacidades diferentes das várias associações. Uma das nossas preocupações é aproveitar as sinergias da rede e nesse sentido vamos fazer um Mapa de Competências na rede". Por outras palavras, as capacidades que não apenas o mero exemplo e a mera experiência individual de uma determinada ADL, podem muito bem ser utilizadas e colocadas ao serviço de outras associações, mesmo que estejam afastadas quilómetros. Eduardo Figueira dá exemplos que podem ser explorados deste trabalho em rede. Por exemplo, todas as ADL utilizam consumíveis, então porque não criar uma central única de fornecimento? Ou têm de fazer seguros, porque não explorar as possibilidades de uma mútua seguradora? Ou necessitam de colocar os seus produtos à venda, para serem comercializados, porque não canalizar para espaços de venda já existentes ou a criar?
É neste sentido que a Direcção da Animar entende a sua actividade, numa lógica de dinamização da actividade em rede aproveitando as capacidades existentes para responder às necessidades colocadas pelas ADL. Tendo sempre presentes que no centro de tudo isto estão as pessoas. "A Animar é uma rede afectos", sintetiza Eduardo Figueira. Esta lógia transborda o País. O que se compreende, num mundo onde as fronteiras são cada vez mais difusas. "Queremos encontrar novos pontos de apoio na Europa, na América Latina ou em África, desenvolvendo projectos conjuntos".
20 anos depois
Em 2013 a Animar vai viver um momento muito particular. Por um lado faz 20 anos, foi fundada em 1993, data que a Direcção pretende comemorar. Por outro, realiza-se a MANIFesta, um grande encontro de cariz nacional e internacional, onde se juntam dezenas de associações, um fórum de debate, um espaço cultural. Vai ser em Setembro, em Santa Maria da Feira. Pelo meio, em Maio, realiza um Encontro Internacional de Desenvolvimento Local. Entretanto, trabalham na revitalização do excelente espaço de Vialonga, tendo em vista a sua transformação naquele que era o projecto inicial, o de ser uma incubadora de pequenos projectos empresariais.
A Animar reúne mais de 75 organizações e 100 pessoas com intervenção nas áreas do desenvolvimento local, da economia social e solidária, da educação formal e não-formal, do associativismo e da cidadania activa. "A promoção da igualdade de oportunidades e de género com vista a uma mais equitativa distribuição da riqueza, ao melhoramento da qualidade de vida das populações e à redução das assimetrias; a congregação de esforços e apoios à actuação em rede, em prol do Desenvolvimento Local e da democracia participativa, numa lógica territorial, de organizações, grupos e indivíduos", fazem parte dos seus objectivos estatutários, como se lê no site da Animar.
Em termos de intervenção a Animar age de diversas formas, nomeadamente, "medindo o impacto das políticas nacionais e comunitárias, fazendo propostas em conformidade com elas e criando e executando projectos em rede com as suas associadas; produzindo, editando e difundindo documentos, realizando seminários, colóquios, conferências, feiras e outras iniciativas, onde avulta a realização bienal da MANIFesta – Assembleia, Feira e Festa do Desenvolvimento Local; editando a revista Vez e Voz, a página electrónica da Animar e o boletim InfoAnimar, para além de animar diversas comunidades de partilha, reflexão e discussão nas redes sociais existentes na internet; promovendo acções de formação e apoio à concepção de candidaturas a projectos e/ou programas relevantes".
(Carlos Cardoso, Notícias De Cá e De Lá, Janeiro 2013)










